2º Bimestre 2020: Saúde e Bem Estar
Coronavírus:
as estratégias e desafios dos países que estão reabrindo suas escolas
Conselho de
Secretarias Estaduais de Educação cria diretrizes para orientar volta às aulas;
veja como países estão tentando mitigar o risco de contágio em suas escolas.
Por BBC
18/06/2020 07h56. Atualizado há 3 horas
Carteiras viradas para frente, em vez de todos sentados juntos
no chão: o novo formato na educação infantil britânica em meio à pandemia —
Foto: Getty Images via BBC
Em Cingapura, alunos limpam as
próprias carteiras escolares e fazem um caminho pré-determinado até suas salas
de aula. Na França e na Coreia do Sul, algumas escolas reabertas tiveram de
fechar, por conta de novos focos de Covid-19. No Reino Unido, um dos países que
reabriu as escolas recentemente, menos da metade dos alunos esperados
apareceram na volta às aulas em algumas delas.
A
expectativa de retorno à escola traz sensações mistas de alívio e preocupação a
muitos pais — prenunciando uma possível volta à rotina, mas também o medo de
expor as crianças (e suas famílias) ao contágio pelo coronavírus.
No
Brasil, as secretarias estaduais de educação ainda não têm previsão de quando
as aulas presenciais retornarão. Estados como Maranhão e Rio Grande do Sul
adiaram seus anúncios de abertura de escolas.
Mas o
Conselho de Secretários Estaduais da Educação (Consed) afirmou que "está
trabalhando com suas equipes nas estratégias sanitárias, financeiras e
pedagógicas que serão colocadas em prática a partir do momento em que as datas
forem definidas".
O
Consed elaborou diretrizes para ajudar redes e escolas no retorno. Entre as
orientações, estão a de se suspender atividades presenciais em grupos, limitar
a quantidade de alunos à metragem da sala, revezar horários de entrada, saída e
recreação, sinalização de rotas dentro da escola para minimizar as chances de
contato entre alunos e criar rotina de triagem e higienização na entrada das
escolas.
Na
parte pedagógica, o documento orienta as escolas a ampliar sua jornada diária e
a repor aulas aos sábados e à noite, para compensar as perdas da quarentena; a
dar apoio psicossocial a alunos e professores e a fazer uma busca ativa de
alunos que possam ter decidido abandonar os estudos durante o período de
isolamento.
Em Cingapura, medição diária de temperatura e normas rígidas
sobre quais crianças podem circular em quais lugares — Foto: AFP
Na prática, muitas dúvidas práticas permanecem
nas cabeças de pais e educadores. Como escalonar a volta das crianças e jovens
à escola e quais devem ter prioridade? Como garantir medidas de distanciamento
social com as crianças pequenas? Quais devem ser as prioridades da escola na
pós-pandemia? E, principalmente, como ter certeza de que o ambiente escolar não
vai virar um foco de proliferação da Covid-19?
O Consed diz que se baseou nas opiniões de seus
técnicos e nas experiências internacionais de volta às aulas. A BBC News Brasil
coletou algumas dessas experiências a seguir:
As crianças pequenas
Alguns dos países que reabriram suas escolas
priorizaram as crianças menores, por sua menor taxa de adoecimento e para
liberar seus pais para voltar ao trabalho. É, também, uma das etapas mais
difíceis de se fazer um ensino remoto de qualidade.
No entanto, é também uma faixa etária que tem
mais dificuldades em fazer atividades sentadas em carteiras, com coleguinhas
distantes entre si.
No Reino Unido, que reabriu parte de suas
escolas em 1° de junho, crianças da pré-escola e anos iniciais não puderam mais
fazer as aulas sentadas lado a lado no carpete, como de costume, mas sim
enfileiradas em carteiras — um modelo de sala de aula mais antiquado e menos
interativo.
Cada turma foi dividida em dois grupos: um
deles frequenta as aulas de segunda e terça; o outro, de quinta e sexta-feira.
Na quarta-feira, a sala de aula é limpa minuciosamente. Todas as classes foram
equipadas com álcool gel e lenços umedecidos.
Mesmo assim, na escola que foi acompanhada pela
BBC em seu primeiro dia de retomada, apenas 32 crianças apareceram, de um total
de 85 que eram esperadas, mostrando que muitos pais ainda têm receio de colocar
os filhos de volta no ambiente escolar.
Uma mãe que levava seu filho, porém, afirmou
que o menino estava "implorando para voltar à escola". "O
principal para mim é a normalidade e a saúde mental dele. Ele precisa da
interação com seus amigos."
Em algumas escolas britânicas, menos da metade
dos alunos esperados apareceram no primeiro dia de volta às aulas — Foto: Getty
Images via BBC
Na Dinamarca, onde as escolas estão reabertas
desde 15 de abril, as crianças têm de lavar as mãos de cinco a seis vezes por
dia. Classes de 20 foram divididas em dois, e as crianças são o dia inteiro
lembradas por educadores a ficarem distantes entre si. No recreio, podem
brincar em grupos de no máximo quatro, e cada grupo fica em um canto do pátio.
Uma menina de 7 anos entrevistada pela BBC
admitiu que o mais difícil de tudo era não poder mais abraçar os amigos.
Em maio, em entrevista ao jornal
"Guardian", um representante do sindicato de professores
dinamarqueses afirmou que a retomada às aulas ocorreu suavemente, mas, mesmo
assim, confirmou que alguns educadores contraíram o novo coronavírus depois de
voltar ao trabalho presencial.
Em Cingapura, uma estratégia das escolas para
incentivar o uso de máscaras pelas crianças pequenas foi comprar um estoque
extra e pedir que cada criança decore a sua, "para virar um novo acessório
personalizado para este novo normal", nas palavras de um representante do
governo ao jornal "Strait Times".
As escolas do pequeno país passaram a medir a
temperatura dos alunos diariamente, e agora cada um traz suas refeições de
casa. As crianças só interagem em pequenos grupos no recreio e só podem andar
nos corredores das escolas em fila única. Cada grupo tem uma rota
pré-determinada à sala de aula e só pode usar um banheiro específico, para
diminuir as chances de contágio.
Em Portugal, que tem escalonado sua volta às
aulas desde 18 de maio, as crianças da pré-escola fizeram parte da última leva
de estudantes que retornaram à escola. Em um vídeo produzido pela Direção Geral
de Estabelecimentos Escolares, pede-se que as crianças "não toquem na
boca, no nariz e nos olhos, mesmo que estejam com as mãos limpas", e
conversem com os professores "se estiverem tristes ou se sentindo
mal".
Saúde mental e perigo de evasão escolar
Muitos educadores também se questionam como
estarão, do ponto de vista emocional, as crianças que estão voltando às aulas
presenciais. "Para algumas crianças, a quarentena foi um período seguro e
agradável. Para outras, foi traumática e desafiadora", diz a Fundação
Britânica de Saúde Mental em documento de orientação à volta à
escola, lembrando que muitas famílias podem ter perdido entes queridos ou sua
fonte de renda, ou enfrentado problemas mentais (como depressão) durante o período
de confinamento.
Isso pode se refletir em crianças mais
retraídas, ansiosas ou irritadas em sala de aula, aponta a fundação. Outras
podem ter dificuldades iniciais em se concentrar e se readaptar à rotina
escolar.
Entre as recomendações do órgão estão a dar
espaço às crianças para que falem de seus sentimentos — entre si, em sala de
aula e em conversas individuais com educadores. E também de dar tempo para que
os vínculos entre as crianças e as escolas sejam refeitos.
Ministro francês
considerou a volta às aulas uma 'emergência social' — Foto: Getty Images via
BBC
Ao mesmo tempo, o bem-estar
físico e mental das crianças tem sido usado também como argumento por gestores
para defender a volta às aulas.
Na França, o ministro da
Educação, Jean-Michel Blanquer, disse que se tratava de uma "emergência
social" colocar os jovens de volta nas escolas, pelo medo de que uma
parcela dos alunos não conseguisse concluir os estudos ou evadisse, criando
"uma geração perdida de crianças que foram impedidas por meses de
frequentar a escola".
No relatório Estratégias para a Reabertura de Escolas, feito por
Unicef, Unesco, Banco Mundial e o Programa da ONU para Alimentação, os
organismos afirmam que "quanto mais tempo as crianças marginalizadas
ficarem fora da escola, menor é a probabilidade de que retornem. Crianças de
lares mais pobres já têm cinco vezes mais probabilidade de não estar na escola
primária, em comparação com lares mais ricos. Ficar fora da escola também
aumenta o risco de gravidez na adolescência, exploração sexual, casamento
infantil, violência e outras ameaças."
O debate de quando reabrir
Mas qual é a hora certa de
reabrir? "O momento de reabertura de escolas deve ser guiado pelo melhor
interesse das crianças e por preocupações gerais de saúde pública, com base na
avaliação dos riscos e benefícios e das evidências (locais)", diz o
documento da ONU.
Não é uma avaliação simples. Na
França, por exemplo, onde a reabertura começou em 11 de maio, algumas escolas
tiveram de fechar temporariamente na semana seguinte, depois que surgiram 70
novos casos de Covid-19 no ambiente escolar (embora a percepção fosse de que,
diante do tempo de incubação do coronavírus, o contágio dessas pessoas
provavelmente ocorreu antes da volta às aulas).
No Reino Unido, a reabertura das
escolas encontrou resistência entre cientistas e gestores escolares, muitos dos
quais consideraram 1° de junho cedo demais em um país com um dos mais altos
números de mortes por Covid-19 no mundo. Algumas escolas se mantiveram fechadas
a despeito da autorização do governo e, na Escócia, a volta às aulas é prevista
apenas para agosto, e mesmo assim em modelo híbrido — parte dos estudos em
casa, e outra parte no ambiente escolar.
Recreio em Cingapura agora tem lanches trazidos de casa e menos interação
entre crianças — Foto: AFP
Em meados de junho, alunos mais
velhos já começaram a voltar à escola, mas quase todos eles só estão tendo
aulas presenciais por no máximo dois dias por semana.
Mesmo 15 dias depois do início da
retomada, ainda há dúvidas quando algumas escolas devem ser reabertas, abrindo
uma disputa entre parlamentares e sindicatos de professores.
O parlamentar trabalhista Jonathan
Gullis acusou o Sindicato Nacional de Educação britânico de "promover uma
campanha política (...) para garantir que as escolas não reabram". Uma
representante do sindicato afirmou que, com a atual proporção alta de alunos
por professores, é muito difícil reabrir as escolas e garantir medidas de
segurança e distanciamento social.
Na Coreia do Sul, à semelhança da França,
algumas escolas fecharam poucos dias após reabrirem, diante de novos picos de
casos de Covid-19 no país. Mais de cem escolas sul-coreanas também adiaram sua
reabertura.
Mas, mesmo com adiamentos, a
reabertura tem ocorrido ali: a última leva de estudantes estava prevista para
voltar às escolas no dia 8. O que tem sido feito para mitigar os riscos é
escalonar não apenas as séries com aulas, mas também horários de aula, de
almoço e recreio. O tempo de aula presencial é menor do que o pré-pandemia, e
parte do conteúdo segue sendo ensinado no ambiente virtual.
No início, classes do ensino
fundamental poderão funcionar com um terço dos alunos; as do ensino médio, com
dois terços.
O governo sul-coreano também tem
inspecionado escolas e, apenas entre as preparatórias para o vestibular, foram
encontradas 10 mil com problemas de adequação às novas normas sanitárias.
E a reabertura tem despertado
dúvidas, segundo o jornal Korea Times. Como apenas os alunos do último ano do
ensino médio estão autorizados a frequentar as escolas todos os dias, alguns
pais dos alunos das demais séries têm se questionado se é produtivo mandar seus
filhos à escola apenas um ou dois dias por semana, e se isso vale a pena o
risco de as crianças contraírem a Covid-19.
Em Cingapura, o escalonamento e a
supervisão também são rígidos. Os primeiros a regressar à escola foram os dos
anos finais do ensino médio, que se preparam para exames de ingresso nas
universidades. E lá também ainda estão sendo mescladas atividades presenciais
com as virtuais.
Alunos mais velhos são responsáveis
por higienizar as próprias carteiras escolares. Aulas de educação física são
feitas em ginásios grandes, com alunos fazendo atividades físicas individuais
orientadas por um professor em um microfone.
Normas de higiene
Alunos lavando
as mãos na França; algumas escolas voltaram a ser fechadas temporariamente após
surgirem novos casos de Covid-19 — Foto: Getty Images via BBC
Em todos os países, a preocupação
maior, é claro, é com as normas de higiene para reduzir a chance de contágio.
Os CDCs, centros de controle de
doenças dos EUA, produziram um guia com orientações específicas de higiene:
desde a diluição ideal para desinfetantes até orientações para deixar as salas
mais ventiladas e com o máximo possível de exposição ao sol, o que ajuda a
matar o coronavírus. Outra orientação importante é de que escolas e demais
locais não estoquem materiais de limpeza em excesso, para evitar a escassez em
varejistas.
O documento da ONU de reabertura de
escolas pede que países e regiões emitam protocolos de higiene que sejam claros
e de fácil entendimento, que educadores de grupos de risco sejam preservados do
ambiente presencial, que exames escolares não essenciais sejam adiados, que
pagamentos de salários sejam preservados e que a higiene pessoal ganhe novo
protagonismo neste período de pandemia.
Em artigo na revista científica
"Lancet", membros da Unesco falam da promoção da "alfabetização
higiênica": "professores devem agir como promotores da saúde para
seus alunos desde cedo, estimulando ativamente hábitos de atividades físicas,
boa higiene pessoal e dieta balanceada, e advertindo para as consequências de
comportamentos de risco", diz o texto.
"Pode-se usar para isso uma
grande variedade de atividades participativas, como debates, trabalhos em
grupo, atividades baseadas em situações da vida real, contação de histórias,
simulações, jogos educativos, artes, música, teatro e dança."






Em alguns países, as atividades estão voltando a funcionar aos poucos, mesmo com tantas novas regras. Todos nós estamos com saudade da antiga rotina escolar. Infelizmente, eu não vejo nenhum avanço para tentar á voltar as atividades no Brasil. Ainda vai demorar para se planejar bem as voltas ás aulas aqui.
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