2º Bimestre 2020: Mundo
Morte de
George Floyd: 4 fatores que explicam por que o caso gerou uma onda tão grande
de protestos nos EUA
Reação nas ruas à morte de homem
negro sob joelho de policial branco desencadeou maior onda de manifestações dos
últimos 50 anos nos Estados Unidos.
Por
BBC
02/06/2020 16h43. Atualizado há uma semana
Os protestos contra a morte de Floyd
repercutiram muito além dos Estados Unidos. Na foto, manifestação em Barcelona,
na Espanha — Foto: Reuters/Nacho Doce
Em novembro de 2014, quando Donald Trump fez
o seguinte comentário pelo Twitter, mal poderia imaginar que um dia estaria na
Casa Branca tendo que lidar com um problema semelhante: "Nosso país está
totalmente dividido e, com nossa fraca liderança em Washington, pode se esperar
que os distúrbios e saques de Ferguson ocorram em outras partes do país".
Naquela ocasião, ele fazia referência aos protestos
na cidade de Ferguson, no Estado do Missouri, onde o jovem negro Michael Brown,
de 18 anos, havia sido morto pelo policial branco Darren Wilson. O presidente
do país era Barack Obama.
Cinco anos e meio depois, os Estados Unidos vive
a mais grave onda de manifestações desde 1968, após o assassinato do líder de
direitos civis Martin Luther King Jr. Desta vez, o estopim dos protestos
foi a morte de
George Floyd, um americano negro de 46 anos, que foi sufocado
por um policial branco, que se ajoelhara sobre seu pescoço por mais de 8
minutos.
O caso provocou manifestações em
mais de 75 cidades. Em mais de 40 delas, as autoridades decretaram toque de
recolher. A Guarda Nacional (força militar que os EUA reservam para
emergências) foi acionada com 16 mil soldados despachados para 24 Estados e a capital, Washington.
Apesar das medidas de distanciamento social
impostas por causa da pandemia de covid-19, os protestos reuniram multidões —
Foto: Reuters/Mike Segar
1. Uma morte, muitos
casos
Capturada em vídeo por uma
testemunha, a imagem do policial com o joelho sobre o pescoço da vítima, que,
deitada na rua e imobilizada, dizia "não consigo respirar", é tida
como o gatilho da onda de indignação que tomou o país.
"O que pôs tudo isso em marcha
foi o brutal assassinato de George Floyd na semana passada. Foi o catalisador,
o que levou as pessoas às ruas", disse Ashley Howard, professora
assistente de História e Estudos Afro-americanos da Universidade de Iowa à BBC
Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Ela diz que essa morte não foi um
caso isolado; que as comunidades negras estão submetidas a uma constante e
excessiva vigilância por parte da polícia.
Essa situação criou um paradoxo, que
Julian Zelizer, historiador político da Universidade de Princeton, resume
assinalando que os negros vivem com medo "porque se sentem vulneráveis
perante aqueles que deveriam protegê-los".
É comum encontrar queixas de cidadão
negros americanos nas redes sociais dizendo sentir que são detidos pela polícia
pelo simples fato de serem negros. E dados indicam que isso não é apenas uma
percepção.
Um artigo de Rashawn Ray, do centro
de pesquisas Brookings Institution, afirma que pessoas negras têm 3,5 vezes
mais chances de serem mortas por policiais do que brancas em situações em que
não existe ataque ao policial ou porte de armas. Entre adolescentes, a
probabilidade é 21 vezes maior. A polícia americana mata uma pessoa negra a
cada 40 horas.
"Um em cada mil negros morre nas mãos da polícia. E por
mais impressionantes que sejam essas estatísticas, elas ainda são melhores do
que no passado. É por isso que há protestos de Minneapolis a Los Angeles",
diz Ray.
Muitas pessoas nos EUA acreditam que a polícia
abusa dos afroamericanos — Foto: Reuters/Jeenah Moon
2. Racismo estrutural
Os excessos policiais não são a única faceta do racismo nos
Estados Unidos e nem foram o único motivo para os protestos.
Ashley Howard, da Universidade de Iowa, diz que a desigualdade
afeta profundamente a vida dos negros nos EUA, e que ela está na origem de
várias disparidades significativas, "de (índices de) mortalidade materna a
diferenças na renda e na riqueza que é passada de uma geração à outra".
Howard também explica que os negros americanos possuem renda e
escolaridade menores que os brancos, e também são maioria na população
carcerária.
"Todas essas coisas são parte do pano de fundo. As pessoas
têm consciência do fato horrível de que suas vidas podem ser apagadas a
qualquer momento. Isso também leva as pessoas a se manifestarem nas ruas",
diz Howard.
3. Pandemia que discrimina
Os protestos acontecem em um momento em que a pandemia do
covid-19 já matou mais de 100 mil pessoas nos Estados Unidos e deixou 40
milhões sem emprego.
Howard diz que os negros americanos sofrem de forma
desproporcional com a pandemia, com maiores números de mortes e casos da doença
nesta população. Isso porque, segundo a pesquisadora, os negros formam uma
grande parte dos trabalhadores que estão na linha de frente da economia, com
empregos como motoristas de ônibus, atendentes de lojas ou assistentes de
saúde. E há outros problemas gerados pelo racismo.
"Eles têm acesso a atendimento médico? Podem tirar um dia
livre de trabalho se ficam doentes? Alguém paga pelo dia não trabalhado? Há
hospitais em suas comunidades? Eles têm apoio para cuidar dos filhos, no caso
de doenças? Todos esses problemas de racismo estrutural se agravam durante a
pandemia."
Julian Zelizer, da Universidade de Princeton, acrescenta que,
"historicamente, os protestos violentos ocorrem durante o verão, quando há
calor e muita gente está incomodada e tensa", e diz não ter dúvidas de que
a pandemia golpeou duramente os negros americanos.
"A maneira distinta como isso foi enfrentado pela
comunidade negra recendeu a raiva sobre como funciona a sociedade americana e
creio que o medo do desemprego deixou muita gente incomodada e disposta a
protestar."
A reação do governo de Donald Trump aos
protestos foi enviar a Guarda Nacional às ruas — Foto: Frederic J. Brown/AFP
4. A reação da Casa
Branca
A esses fatores, diz Zelizer, se somou à resposta equivocada do
governo de Donald Trump, que ajudou a "inflamar" a situação.
"As pessoas
precisam de um presidente que peça calma, mas que também escute e responda às
causas do que está acontecendo", diz ele.
Zelizer questionou os apelos de Trump por lei e ordem usando
frases como "os saques levam a tiroteios", que eram usadas por
"algumas das vozes mais reacionárias" da década de 1960.




As pessoas estão cansadas de verem negros sofrendo por serem eles mesmos. Felizmente, uma parte do mundo entende que isso tem que mudar agora. Com a força da comunicação e a organização da geração atual, lutaremos sempre pela justiça e pelo fim do racismo.
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