2º Bimestre 2020: Ciências
Rússia
certifica remédio ainda em testes contra a Covid-19; veja o que se sabe sobre o
antiviral
Medicamento Avifavir, versão modificada de um
antiviral experimental, deve chegar a hospitais russos na semana que vem.
Substância original, que pode causar má formação em embriões, foi testada na
China ainda está sendo testada no Japão, e não é comercializada para nenhuma
outra doença.
Por Lara Pinheiro, G1
06/06/2020 05h00. Atualizado há 3 dias
Profissional de saúde trata pacientes em ala de
maternidade de hospital destinado a pessoas com Covid-19 em Moscou, na Rússia,
no dia 25 de maio. — Foto: Maxim Shemetov/Reuters
A Rússia anunciou,
na quarta-feira (3), que certificou o antiviral Avifavir para
o tratamento da Covid-19. O medicamento ainda está em fase de testes e é uma
versão modificada do antiviral experimental favipiravir, de
origem japonesa.
Segundo o Fundo Russo de Investimento
Direto (RDIF, na sigla em inglês), que anunciou a certificação do Avifavir em
uma nota à imprensa, o remédio mostrou "alta eficácia" em ensaios
clínicos feitos com 330 pacientes em 35 centros médicos. Os testes começaram em
21 de maio e ainda estão em andamento.
A empresa não divulgou nenhum artigo
científico com os resultados da pesquisa nem detalhou quais foram as
modificações feitas no medicamento japonês.
Ao G1, o fundo informou que os dados
foram submetidos a uma publicação científica e serão divulgados "em
breve". As primeiras remessas do Avifavir chegarão aos hospitais russos a
partir do dia 11. Ao longo do mês, eles devem receber 60 mil doses, de acordo
com o RDIF.
Nesta reportagem, além de informações sobre os testes
na Rússia, você verá que:
- A versão original do favipiravir ainda está em testes para a Covid-19 no Japão, onde é aprovado (mas não comercializado) para tratar Influenza.
- Um estudo sobre a ação do remédio para o novo coronavírus já foi publicado na China.
- Outros países, incluindo os Estados Unidos, também fazem experimentos com a substância.
Ensaios russos
Equipe trata paciente com Covid-19 em hospital
em Moscou, na Rússsia, no dia 25 de maio. — Foto: Maxim Shemetov/Reuters
Segundo o fundo russo, a eficácia do
Avifavir ficou acima de 80%, critério para drogas com "alta atividade
antiviral". A empresa não disse, entretanto, qual era o grau dos sintomas
de Covid-19 dos pacientes que participaram do estudo, nem se eles tinham alguma
outra doença.
"Eles
dizem que têm resultados, mas não sabemos. O problema é que não temos estudo.
Então estamos no escuro", avalia Natália Pasternak, microbiologista e
presidente do Instituto Questão de Ciência.
O fundo divulgou que, em um teste com
40 pacientes que tomaram o remédio, 65% testaram negativo para a Covid-19
depois dos primeiros 4 dias de tratamento; entre os que não tomaram, metade
teve esse resultado. No 10° dia, 90% dos pacientes já haviam se recuperado.
Em 10 dias de ensaios clínicos, o
tempo de eliminação do novo coronavírus foi de 4 dias para pacientes que
tomaram o remédio, comparado a 9 dias naqueles que não receberam.
“O medicamento tem um mecanismo de
ação claro – bloqueia a replicação do vírus dentro da célula, atrapalhando seu
ciclo de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o Avifavir não suprime processos
similiares ocorrendo em células humanas, e por isso não é tóxico para
elas", afirmou Konstantin Balakin, chefe do Departamento de Química da
Universidade Federal de Kazan.
O
remédio também "demonstrou segurança, com nenhum efeito colateral novo ou
que não tivesse sido informado antes", relatou a empresa.
"A
tolerância é boa, sem náusea, desconforto abdominal ou diarreia, que ocorrem
com frequência na terapia padrão", afirmou Elena Simakina, chefe da
Unidade de Doenças Infecciosas do Hospital Clínico nº 1, em Smolensk.
Para a infectologista Rosana
Richtmann, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, não é possível tomar
decisões clínicas sem ler o estudo completo. "Qualquer droga que venha
para benefício dos nossos pacientes e que não cause danos é sempre muito
bem-vinda. O que não pode é sair prescrevendo sem ler e analisar a parte
científica".
"A
gente não quer grandes estudos com metodologias impecáveis, quer o mínimo de
segurança para prescrever essas drogas. Eu não vou me basear em um site que
falou que tem bons resultados para sair prescrevendo. Deixa sair o resultado
para a gente ver que tipo de paciente usou, por quanto tempo, quais foram os
efeitos adversos, qual foi a vantagem de usar a droga", explica Richtmann.
Os testes do remédio ainda estão
ocorrendo em Moscou, São Petersburgo, Tver, Nizhny Novgorod, Smolensk, Ryazan,
Kazan, Ufa e na República do Daguestão.
Antiviral de origem
Foto mostra comprimidos do remédio 'Avigan'
(cuja substância genérica é o favipiravir), de origem japonesa e que está em
testes no país para combater a Covid-19. — Foto: Issei Kato/Reuters
Os cientistas russos modificaram o
antiviral favipiravir, de origem japonesa. No Japão, o medicamento foi aprovado
sob o nome comercial "Avigan", mas não é
vendido nem em hospitais, nem em fármacias no Japão ou fora do país, segundo a
fabricante de origem (Toyama Chemical, uma subsidiária da
Fujifilm).
Além da Toyama Chemical, outros 7
laboratórios no mundo desenvolvem o medicamento, incluindo três ligados à
Fujifilm, um às Forças Armadas dos Estados Unidos e
um na China, de acordo com a base
de dados AdisInsight.
Em estudos
com animais, o favipiravir já foi apontado como teratogênico (pode
causar más formações em embriões, do mesmo modo que a talidomida).
O remédio vem com um alerta para
mulheres grávidas e em idade fértil. Ele também é detectado no esperma; por
isso, recomenda-se o uso de preservativo para homens.
O antiviral foi originalmente pensado
para tratar gripe. Mas, conforme a própria Toyama Chemical, o seu uso deve ser considerado apenas
quando há um surto de um vírus Influenza novo ou reincidente contra
o qual outros antivirais não tenham o efeito necessário. Nesses casos, cabe ao governo japonês decidir usar a
droga.
"Essa
é uma droga que foi desenvolvida como uma reserva de tratamento para Influenza.
É uma estratégia do próprio laboratório e do Japão de guardar essa droga,
preservar essa droga caso aparecesse outra pandemia de Influenza. Sempre se tem
muito medo de que você possa ter um vírus Influenza muito agressivo que não
seja sensível ao oseltamivir [Tamiflu]", explica José David Urbaéz,
infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia no Distrito Federal.
Segundo a fabricante, o favipiravir
tem um mecanismo de ação que impede a propagação de vírus e "pode ter um
potencial efeito antiviral" no Sars-CoV-2 (nome do novo coronavírus),
porque ele, assim como os vírus da família influenza, tem apenas uma fita de
RNA.
"Mas,
neste estágio, a aplicação clínica do Avigan para tratar a Covid-19 está sob
estudo e preparação para obter evidência clara da eficácia e segurança da
droga", disse a empresa.
No início de maio, o
primeiro-ministro, Shinzo Abe, chegou a exaltar o potencial da droga para a Covid-19 –
ele afirmou que o remédio seria "crucial" para combater a doença –
mas, no dia 26, o ministro da Saúde japonês, Katsunobu Kato, anunciou que
aprovação da droga havia sido adiada para junho "ou mais tarde",
segundo a agência de notícias Reuters.
De acordo com a agência, Kato disse
que o governo pretendia aprovar a droga se os resultados dos testes clínicos,
conduzidos na Universidade de Fujita, mostrassem alta eficácia para tratar
Covid-19. Mas um painel de especialistas que avaliou o relatório inicial dos
testes declarou que era cedo demais para julgá-los cientificamente, o que fez com que os ensaios continuassem.
Além
da universidade, a droga está sendo testada pela própria Fujifilm. O Japão também
anunciou, no mês passado, que enviaria o remédio a 43 países para experimentos
contra o novo coronavírus.
Pesquisa chinesa
Agentes de saúde se preparam para coletar
amostras de exames de jornalistas durante o encerramento do Congresso Nacional
do Povo e de coletiva de imprensa do premiê chinês em Pequim, no dia 28 de
maio. — Foto: Ng Han Gua/AP
Em
março, cientistas do Terceiro Hospital do Povo, em Shenzhen, na China,
publicaram um ensaio clínico em que testaram o favirapivir contra o novo
coronavírus: 35 pacientes receberam o favirapivir, e outros 45 foram tratados
com outro antiviral (que serviu de grupo controle). Não foram incluídos casos
graves de Covid-19.
Os
pacientes que usaram o favirapivir se livraram do vírus mais rápido (em 4 dias
em vez de 11) e tiveram taxas mais altas de melhora em imagens do tórax.
"Esses
achados sugerem que o favipiravir tem efeitos de tratamento significativamente
melhores na Covid-19 em termos de progressão da doença e eliminação viral, em
comparação com o lopinavir/ritonavir", concluíram os autores.
Os
efeitos colaterais do remédio também foram menos graves do que os causados pelo
outro antiviral, o que, segundo os autores, contribuía para um tratamento
prolongado se necessário.
Eles lembraram que o estudo teve
limitações, que levaram a um viés de seleção dos participantes:
- Não foi um ensaio clínico randomizado (em que os pacientes são colocados em cada grupo aleatoriamente);
- Não teve grupo de controle placebo (em que um
grupo recebe uma substância inativa e não o tratamento em si ou outra droga);
- Não teve duplo-cego (método em que nem os pacientes nem os médicos sabem quem está recebendo qual tratamento).
Testes nos EUA
Nos
Estados Unidos, testes com o favipiravir para a Covid-19 começaram em abril,
com 50 pacientes em três hospitais: no Hospital Geral de Massachusetts, um dos
maiores do país; no Brigham and Women’s Hospital; e no hospital da faculdade de
medicina da Universidade de Massachusetts. A previsão é que os primeiros
resultados saiam em agosto.
Em uma
entrevista de abril, publicada na página de inovação do Hospital Geral de
Massachusetts, o médico Boris Juelg, que coordena as investigações com o remédio
no hospital, explicou a decisão de testar o remédio lá.
"Ele
tem alguma atividade contra o ebola. Foi testado na África Ocidental na época
em que houve os surtos, mas não em grandes ensaios clínicos randomizados e
controlados. Portanto, não há evidências claras para dizer que definitivamente
funciona. Dado que possui atividade antiviral, agora estão testando contra o
Sars-Cov-2, contra o qual demonstrou atividade", afirmou.
Antiviral
americano
No
mês passado, o presidente americano, Donald Trump, autorizou o uso emergencial do antiviral experimental remdesivir contra
a Covid-19. O remédio melhorou
o tempo de recuperação dos pacientes de 15 para 11 dias.
O
remdesivir havia sido pensado, originalmente, para tratar hepatite, mas não
funcionou; também foi testado para o ebola, mas não teve resultados
promissores, segundo o jornal americano "The New York Times".
O medicamento também
mostrou eficácia contra a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na
sigla em inglês) em
uma pesquisa feita em macacos. O vírus causador da doença
também é da família corona, como o Sars-CoV-2 (nome
do novo coronavírus).




Toda pequisa nesse momento é importante, pois é preciso descobrir uma medicação que ajude a combater o covid-19, como também é necessário criar uma vacina. Mais para que essas pesquisas sejam confiáveis, tem que seguir todas as etapas e os protocolos. Realmente é muito arriscado fabricar um remédio ou uma vacina sem muitos estudos e testes. Espero que os países continuem investindo nas pesquisas e consigam descobrir soluções eficientes para essa pandemia. A gente tem que acreditar que a ciência vai vencer mais essa batalha contra o covid-19.
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