3º Bimestre 2019: Política
A importância da personalidade do governante na democracia
O artigo do cientista político Sérgio Abranches para o blog neste domingo
Por Sérgio Abranches
08/09/2019
11h28
Desde que Theresa May deixou o cargo
de primeira-ministra do Reino Unido e foi substituída por Boris Johnson, o país
vive situações de afronta à sua democracia sem precedentes no após-guerra. Os
dois momentos capitais de confronto com as tradições democráticas britânicas
foram o recesso parlamentar prolongado e a ameaça do primeiro-ministro de
desobedecer à legislação sobre a Brexit aprovada pela Casa dos Comuns e
confirmada pela Casa dos Lordes. Ao pedir à rainha a aprovação pró-forma para
prolongar o recesso parlamentar, dificultando o exame de um acordo para uma
saída negociada da União Europeia, Johnson causou revolta entre os Conservadores.
Um parlamentar deixou o partido. Outro, irmão do primeiro-ministro, renunciou
ao mandato parlamentar. Ministros renunciaram ao governo e ao parlamento.
Vários se opuseram à atitude autoritária do primeiro-ministro, dando maioria à
oposição. Como resultado, Johnson sofreu derrotas seguidas no parlamento. Com
apoio Conservador, aprovaram lei proibindo uma saída não-negociada (no-deal
Brexit) e outra determinando que ele peça formalmente um adiamento a Bruxelas.
Johnson diz que vai desobedecer e já foi alertado que pode ser processado e
preso.
A democracia britânica tem mecanismos
de defesa contra investidas autoritárias. Por isso, o parlamento pôde se
insurgir e neutralizar a manobra autocrática de Johnson. Mas, não é uma solução
acabada. O país vive hoje em tensão e impasse, na expectativa de qual será a
resposta do primeiro-ministro acuado. Johnson é populista e autoritário. A
personalidade autoritária do governante faz diferença. Basta ver o clima de
tensão e confronto que existe hoje na política dos Estados Unidos, em reação às
atitudes antidemocráticas de Donald Trump. O Congresso está polarizado, o
partido Republicano cada vez mais dividido. Numerosos governadores estão em
conflito direto com Washington, insatisfeitos com os retrocessos nas políticas públicas
federais em vários campos, entre eles clima, conservação da natureza e política
comercial. O Brasil enfrenta uma crise política, que se tornou crônica e aguda
após a posse de Jair Bolsonaro, outro governante de personalidade autoritária,
sempre em confronto com algum setor, sempre forçando as instituições e a
Constituição.
Curioso é que a democracia mais
frágil, a italiana, livrou-se com mais eficácia do golpe populista de Matteo
Salvini, usando a conversação e o acordo democráticos. Giuseppe Conte, um
primeiro-ministro politicamente fraco, diante do voto de desconfiança
articulado por Salvini para derruba-lo e convocar eleições, renunciou. Mas não
sem mostrar a trama autoritária por trás do ato de infidelidade do parceiro de
coalizão. O Partido Democrático, de centro-esquerda, dispôs-se a conversar com
o M5S, um partido idiossincrático, quase anarquista, de centro-direita, para
formar um novo governo e bloquear Salvini. As conversas avançaram, os pontos de
divergência foram resolvidos ou retirados da agenda do governo e Conte voltou
ao cargo de primeiro-ministro, mais forte politicamente do que antes. Se o
governo vai durar ou não, é desimportante. O parlamentarismo convive bem com a
instabilidade governamental. O que é interessante é que seja na Itália, a mais
problemática das democracias europeias maduras, que a ameaça populista seja
afastada, mesmo que temporariamente, dentro das regras da democracia e sem
sobressaltos. Salvini certamente não esperava que fosse assim. Apostou na
fragilidade do sistema e perdeu. Talvez os italianos tenham mais a perder e
mais consciência das fraquezas institucionais de sua democracia. Britânicos e
americanos são tão confiantes na solidez dos regimes que construíram que os
tomam por inabaláveis. Mas, como alertava Shakespeare em Macbeth, a confiança é
a maior inimiga do ser humano.
A democracia é um regime complexo e
delicado. As instituições contam muito e são elas que, ao final, definem a
robustez e a qualidade do regime democrático. Mas ela tem fragilidades. A
principal é que, para não trair sua própria natureza, deve dar liberdade de
ação a seus inimigos. Precisa, para não se negar, permitir que usem suas
próprias regras contra ela. Tem dado certo em muitos lugares. Quando é assim, o
regime desliza rumo ao autoritarismo, se a sociedade não resiste, convocando as
instituições de autodefesa a tempo. Há analistas dizendo que os Estados Unidos
estão neste momento de deslize. É, certamente, o caso do Brasil.
A democracia requer certos
formalismos. Um caso exemplar disso, foi capturado recentemente pelas TVs de
todo o mundo, quando um membro do partido Conservador atravessou o plenário
deixando a bancada de seu partido e sentando-se na bancada do partido
Liberal-Democrático, enquanto Boris Johnson estava a falar de seus planos. Uma
formalidade simbólica carregada de conteúdo político.
Decoro do governante é outra
formalidade essencial. Trump, Johnson e Bolsonaro não respeitam o decoro do
cargo e ferem a sua legitimidade ao adotarem atitudes indecorosas. A democracia
depende, portanto, além da força das instituições, da personalidade do
governante. Uma personalidade autoritária na chefia de um governo democrático é
uma contradição que tem consequências sempre. Governos tendem a incorporar o
espírito de seus chefes. Não existe a possibilidade de uma democracia
autocrática. Mais que um oxímoro, é uma anomalia insustentável. Vence a
personalidade autoritária e o regime desliza para o autoritarismo. Ou vence a
democracia e o autocrata é removido do governo. A democracia tem regras para
livrar-se legal e legitimamente desse tipo de governante.
* Sérgio Abranches é cientista
político, escritor e comentarista da CBN. É colaborador do blog com análises do
cenário político internacional
Para mim, a comunicação do governo, especialmente o presidente, deve ser clara e justa. Talvez se o governo pensasse em estudar realmente o que é democracia entenderia mais ainda o que tem de errado em seus discursos, que muitas vezes influencia no mundo todo.
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