3º Bimestre 2019: Ciências
Amazônia pode ser
menos resistente ao efeito estufa do que se pensava, diz estudo
Estudo indica capacidade limitada da floresta de absorver CO2 devido a solo carente em fósforo. Pesquisas anteriores sugeriam que maior concentração de gás estimularia fotossíntese e resiliência a mudanças climáticas.
Por Deutsche Welle
Foto aérea mostra uma parcela desmatada da
Amazônia perto de Humaitá, no Amazonas, nesta quinta-feira (22) — Foto: Ueslei
Marcelino/Reuters
Um estudo publicado pela revista
científica Nature Geoscience, capa da edição de setembro, indica que a Floresta
Amazônica pode ser menos resistente às mudanças climáticas do que se pensava.
Os autores do estudo concluíram que a
quantidade de fósforo presente no solo está ligada à capacidade da floresta de
absorver dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveis pelo efeito estufa
no planeta.
Conforme o pesquisador David Lapola, da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), um dos 28 cientistas que assinam o estudo, com menos
fósforo disponível para as plantas, a capacidade de absorção do CO2, necessário
para a realização da fotossíntese, pode ser limitada, em média, a 50%.
Na prática, se a mata absorve
menos CO2, tende a contribuir também em menor parcela para a redução dos gases
de efeito estufa no planeta. Além disso, o fenômeno lança dúvidas sobre
hipóteses que sugerem que o aumento do gás carbônico na atmosfera seria, na
realidade, benéfico para as plantas, que absorvem CO2 para fazer a fotossíntese
e, assim, poderiam se tornar mais vigorosas.
Essas hipóteses consideram que,
com mais vigor, as florestas se adaptariam melhor às mudanças climáticas e se
tornariam mais resistentes aos impactos do efeito estufa, como menos chuvas,
temperaturas mais altas e a transformação de parte das florestas úmidas em
savanas.
No entanto, ao identificar que a baixa concentração de
fósforo no solo pode limitar a capacidade de absorção de CO2, novas perguntas
surgem na comunidade científica.
"A maior parte dos resultados de impactos que as
mudanças do clima podem ter na floresta vem de simulações em modelos, feitas há
quase 20 anos. Elas colocam que se o efeito de fertilização por gás carbônico
existir e for forte o suficiente poderia contrabalancear o ciclo ruim de
aumento de temperatura e redução de chuva. Aí, a floresta permaneceria mais ou
menos do jeito que ela é", explica Lapola.
"O problema é que essas simulações feitas lá
atrás consideravam que o efeito de fertilização por CO2 era algo que não tinha
limitação. Mas este estudo nosso mostra que pode haver uma limitação forte
causada por nutrientes, o fósforo é o principal deles", afirma.
Baixa concentração de fósforo
A causa da baixa concentração de fósforo no solo
amazônico é um fenômeno natural, afirma o cientista. Diferentemente do ciclo do
carbono e da água, que apresentam fases atmosféricas, isto é, evaporam e
retornam depois ao solo, o fósforo está nas rochas. Com a erosão natural, as
rochas ricas em nutrientes se desmancharam, e o mineral foi lavado pelas chuvas
ao longo das eras geológicas. Não há o que possa ser feito para reverter o
quadro.
"Esses solos foram tão lavados pelas chuvas nas
eras geológicas, que praticamente tudo o que existe do mineral na floresta está
na vegetação. Por isso, quando você vai a uma floresta assim, você vê uma
camada muito densa de raízes no meio da folhagem seca que caiu. Até mesmo
quando cai um galho de uma árvore, não dá nem 15 dias e já tem um monte de
raízes dentro desse galho. São as árvores pegando o fósforo que está dentro
dessa biomassa, porque no solo não tem quase nada", diz.
Conforme o pesquisador, já é conhecido pelos
cientistas que 60% do solo amazônico, especialmente nas regiões leste, sul e
central, apresentam a maior carência da substância. Essas são justamente as
regiões mais afetadas pelo desmatamento nos últimos 30 anos e focos de
queimadas registrados nas últimas semanas.
Com os incêndios, parte do fósforo até permanece nas
cinzas, mas em poucos anos se dilui e não pode mais ser reaproveitado pela
floresta, interrompendo o mecanismo de reciclagem natural. Na
avaliação de Lapola, essas interferências humanas apenas pioram o quadro,
porque hoje é justamente na vegetação onde se encontra a maior reserva
amazônica de fósforo.
Fase de campo não tem recursos para prosseguir
Também assinam o artigo da Nature Geoscience Katrin
Fleischer, da Universidade Técnica de Munique, pesquisadores da Universidade de
Augsburg e do Instituto de Bioquímica Max Planck, da Alemanha, além de
instituições de Austrália, Estados Unidos, França, Áustria e Reino Unido.
Os resultados do estudo foram obtidos por meio de
simulações feitas em computador, considerando cálculos de níveis de
fotossíntese, acúmulo de biomassa, injeção de diferentes níveis de gás carbônico
e dados já disponíveis a respeito das condições geológicas da área central da
Amazônia. O próximo passo é testar em campo o que foi verificado nas
simulações, dentro da floresta. Mas justamente aí está a dificuldade para os
pesquisadores avançarem, por falta de recursos.
Desde 2014, o projeto Amazon-Face, coordenado pelo
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), com apoio de universidades
brasileiras, europeias e americanas, tem como objetivo testar como a vegetação
da Amazônia responde a altos níveis de CO2.
Por meio de torres de 30 metros de altura numa área
ao norte de Manaus, na Amazônia Central, os cientistas projetam borrifar o gás
e, assim, fertilizar as árvores do entorno para avaliar se há aumento de
biomassa. Com a nova descoberta relacionada à escassez do fósforo, o
experimento também ajudará a identificar o quanto exatamente a carência do
mineral no solo local interfere na absorção de CO2.
A próxima fase do estudo deve custar em torno de R$
10 milhões, mas não há sinalização de recursos para financiar o projeto, que
vêm sendo protelado desde 2016. Procurados pela DW Brasil para falar a respeito
das verbas, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e o Inpa não
responderam aos questionamentos.
Como alternativa, os pesquisadores estão
trabalhando numa fase simplificada do estudo de campo para coletar as primeiras
amostras. A partir deste mês, em vez das torres do Amazon-Face, eles usarão
oito câmaras, que funcionarão como espécie de estufas, montadas na floresta
sobre árvores jovens, de até 3 metros de altura, que no futuro serão a base da
floresta.
Dentro dessas câmaras, haverá a aspersão de CO2
durante cerca de um ano. Segundo Lapola, os resultados são muito aguardados
pela comunidade científica.

Quanto mais destruirmos e queimarmos a Floresta Amazônica, não estamos prejudicando só quem vive perto dessa região, mas todos os brasileiros de todas as regiões, pois a Amazônia influencia de muitas formas em várias partes do Brasil. Isso é uma informação importantíssima que todo mundo sabe, mas várias pessoas ignoram e continuam destruindo essa vegetação.
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