2º Bimestre 2021: Ética e Cidadania
'Como achar que um negro é dono de uma bicicleta tão cara?', reflete
antropólogo ao criticar 'racismo estrutural' em caso no Leblon
Foto de Matheus Ribeiro, o
rapaz que foi acusado por roubo.
O cenário é a calçada em frente ao Shopping Leblon,
na tarde do último sábado. Em meio aos muitos pedestres que vêm e vão, Igor
Martins Pinheiro, de 22 anos, agacha-se ao lado de uma bicicleta elétrica, como
mostram câmeras de segurança instaladas na rua. Em menos de dois minutos, o
rapaz rompe a corrente do cadeado com um alicate, à luz do dia, e deixa o local
empurrando o equipamento, sem chamar atenção ou ser incomodado. Cerca de meia
hora depois, no mesmo local, Tomás Oliveira e Mariana
Spinelli, proprietária do item furtado, interpelaram Matheus Ribeiro,
que estava sobre uma bicicleta elétrica similar, relatando o crime
recém-ocorrido. A abordagem do casal, filmada pelo instrutor de surfe,
gerou intensos debates e virou caso de polícia. Igor, preso na manhã desta quinta-feira por agentes da 14ª DP (Leblon),
é branco e loiro. Matheus é negro e usa cabelo no estilo Black power.
Especialistas ouvido pelo EXTRA enxergam no ocorrido um exemplo do chamado
“racismo estrutural”.
Foto de Martins Pinheiro, o
verdadeiro ladrão da bicicleta.
Para o antropólogo Roberto DaMatta, professor do
Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, o episódio remete ao passado
escravocrata do país, que ainda deixa marcas na sociedade brasileira. Na
avaliação de DaMatta, não é preciso que o ocorrido seja tipificado pela polícia
como racismo para que configure, ainda assim, um exemplo de “preconceito
estrutural”.
— Como você vai achar que aquele negro pode ser
dono de uma bicicleta elétrica tão cara? Ao mesmo tempo, se alguém se
aproximasse do rapaz branco no momento do furto, talvez avaliasse que ele
estava com algum problema e oferecesse ajuda. Não são coincidências. Temos um
passado de escravidão muito forte, um histórico que sempre colocou negros em
posições inferiores. E é um passado que nos persegue e vem à tona em situações
como essa — analisa DaMatta — O racismo está tão entranhado que, nesse caso,
não precisou nem aparecer como crime, a ser necessariamente tipificado em
delegacia como tal. Mas ele está ali, presente no nosso cotidiano.
A também
antropóloga Vera Rodrigues tem visão semelhante. Professora da Universidade da
Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e seminarista no
Centro de Estudos Afro-Latino-Americanos da Universidade de Harvard, Vera
afirma que “é preciso reconhecer que o Brasil é um país racista”:
— Casos como
esse são um tapa na cara de quem está disposto a ver, porque exemplificam o
"racismo à brasileira", em que pessoas brancas partem de um lugar
social no qual acreditam ter uma pseudoautoridade sobre negros. Me parece
bastante improvável que tudo acontecesse exatamente igual, com o mesmo tom de
abordagem, se o rapaz também fosse branco — diz a professora — E tem mais: o
que aconteceria se a polícia tivesse sido chamada de imediato? Ou se outros
populares tivessem decidido fazer justiça? Não dá para dissociar esse episódio
do fato de que a cada 23 minutos um jovem negro como ele é assassinado no
Brasil.
Vídeo feito por Matheus mostrando Tomás e Mariana.
Conhecido
como 'Lorão'
Os policiais
chegaram até Igor a partir da análise nas imagens de câmeras. Minutos depois do
furto, o circuito interno do prédio onde ele mora, em Botafogo, registrou a
chegada do rapaz com a bicicleta de Mariana.
Conhecido como “Lorão”, Igor tem 28 passagens na
polícia, metade delas por furtos de bicicletas. Ele já foi preso pelo menos
sete vezes por ações semelhantes à de sábado — em 2018, por exemplo, o rapaz
foi apontado pela polícia como responsável por mais de dez furtos de bicicleta
na Zona Sul em um período de dois meses.
— Eu recebi
essa notícia há pouco e estou muito aliviado por eles terem achado o verdadeiro
culpado. Espero que o casal resolva o problema e que eles vejam que o perigo não vem só do negro. Como vocês viram,
foi um branco que cometeu o crime — desabafou Matheus pouco após a prisão.
Ao serem
ouvidos na 14ª DP, onde o relato do instrutor de surfe foi registrado como
crime de calúnia, Tomás e Mariana negaram terem abordado Matheus “em razão de
cor de pele”. De acordo com o casal, o comportamento teria sido o mesmo caso se
tratasse de uma pessoa branca.
— Diante da
narrativa tanto do Matheus quanto das pessoas que estão sendo investigadas, em
nenhum momento foi mencionada a existência de nenhuma ofensa expressa verbal de
caráter racial. Essa menção não foi trazida por parte do Matheus ou do casal.
Então, por isso, a gente investiga esse caso como calúnia e não injúria racial
— explicou a delegada Natacha Alves de Oliveira, titular da 14ª DP.
Bicicleta pertencente à Matheus.




É muito triste ver que situações como essas acontecem todos os dias com a população negra. O caso de Matheus é bem complicado, e piorou mais ainda. Recentemente, as investigações da polícia descobriram que a bicicleta dele era roubada, mas não que ele tenha roubado. Agora ele teve que devolver a bicicleta e terá que provar a sua origem. De fato, esse caso não teria sido da mesma forma se Matheus fosse branco. O Brasil é um país muito racista, parece que nunca terá fim.
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