4º Bimestre 2020: Política
Huawei, Trump, Bolsonaro e China: o que o Brasil tem a ganhar e
perder se ceder aos EUA no 5G?
Brasil terá que decidir sobre como implementar o 5G em meio a
uma das disputas mais acirradas da guerra comercial entre Estados Unidos e China.
Por BBC
21/10/2020 14h37. Atualizado há 4 horas.
A Huawei é a maior fornecedora de equipamentos para redes de telecomunicação do mundo — Foto: Reuters.
Em meio a tantos acontecimentos neste ano pode até ser difícil de se perceber, mas os governos de diversos países — entre eles o Brasil — estão em meio a discussões e decisões que vão revolucionar a forma como as pessoas trabalham, se relacionam e vivem.
Trata-se da implementação da tecnologia de quinta
geração de telecomunicações (5G). À primeira vista, o 5G é apenas uma
atualização dos sistemas de 4G já existentes no Brasil — o uso de frequências
de rádio outorgadas pelo governo a operadoras de telefonia móvel para
transmissão de dados digitais.
Mas na
prática o 5G será muito mais do que isso. A velocidade esperada nas conexões é da ordem de 10 a 20 vezes
maior do que a tecnologia do 4G. Esse salto de eficiência
permitirá mudanças drásticas na forma como a sociedade funciona.
Um exemplo, entre centenas de possibilidades, é o desenvolvimento de carros autônomos — guiados por robôs e sem motoristas — que é uma das maiores apostas da indústria automotiva para o futuro.
A tecnologia 5G permitiria interligar os carros em
rede, organizando todo o tráfego de veículos de forma segura e sem a necessidade
de motoristas para tomarem decisões.
Pressão
sobre o Brasil
Em
qualquer cenário, as decisões sobre um leilão dessa magnitude — que será o
maior já realizado no Brasil e um dos maiores do mundo — já seriam polêmicas e
difíceis.
Mas para piorar, o Brasil terá que decidir sobre como implementar o 5G em meio a uma das disputas mais acirradas da guerra comercial entre Estados Unidos e China.
O governo do presidente Jair Bolsonaro vem sendo pressionado pelas duas
superpotências mundiais. O presidente americano, Donald Trump, chegou a falar
abertamente, em julho, que está em campanha contra os chineses na questão.
O centro da disputa é uma empresa chinesa, a Huawei, que é hoje líder global na tecnologia 5G.
O mercado de telecomunicações brasileiro é dominado por quatro operadoras gigantes (Vivo, Claro, TIM e Oi) que oferecem serviços de celular aos brasileiros. Mas por trás desses serviços, há uma rede de equipamentos tecnológicos que são fornecidos às operadoras por apenas três empresas: a sueca Ericsson, a finlandesa Nokia e a Huawei. No Brasil, como em diversos países do mundo, a rede de 4G conta com tecnologia destas três empresas.
Mas, nos últimos anos, os EUA iniciaram uma ofensiva contra a Huawei, que
segundo os americanos representa um perigo de segurança nacional aos países que
comprarem seus equipamentos.
A acusação é baseada na seguinte lógica: se toda a sociedade
estiver interconectada usando equipamento de uma empresa chinesa —
o que incluiria sistemas de trânsito, de comunicação ou até mesmo de
eletrodomésticos "inteligentes" dentro dos nossos lares — todos nós estaríamos vulneráveis a espionagem pelo governo da
China.
A
Huawei é uma empresa privada, mas uma lei de segurança aprovada pela China em
2017 permite, em tese, que o governo de Pequim exija dados de companhias
privadas, caso a necessidade seja classificada como importante para soberania
chinesa.
Os americanos querem que o Brasil adote uma licitação que exclua o uso de equipamentos da Huawei por parte das operadoras — algo que já foi adotado em outros países do mundo, como Reino Unido, Japão e Austrália.
A China nega todas as acusações e diz que o único interesse dos EUA é
minar o crescimento tecnológico chinês, que vem fazendo face aos americanos.
Ambos
os lados da disputa sugerem que o Brasil poderia ser vítima de sanções de um
lado ou de benesses do outro, dependendo de como o país decidir se posicionar.
Bolsonaro e Paulo Guedes receberam o assessor de segurança dos EUA,
Robert O'Brien, esta semana — Foto: Reuters.
O Brasil pretende realizar a licitação do 5G em maio do próximo ano.
E o presidente Jair Bolsonaro declarou esta
semana que será ele quem decidirá sobre a questão da Huawei e "ponto
final".
Mas o que o Brasil tem a
ganhar ou a perder, caso ceda às pressões americanas?
Ganhar
Até
agora, o principal incentivo para banir
a Huawei é o alinhamento com os EUA.
Também
está subentendido que junto com esse alinhamento poderia vir algum tipo
de ganho financeiro na relação
bilateral.
Na
terça-feira, autoridades brasileiras
receberam uma delegação do governo americano em Brasília para assinatura de uma
carta de intenções na qual o EximBank, o Banco de Exportação e Importação dos
Estados Unidos, sinaliza que poderá investir mais de R$ 5 bilhões em projetos
de diversas áreas — "especialmente em telecomunicações",
segundo um comunicado do governo americano.
Outras
duas coisas chamaram atenção no evento. Primeiro a presença do assessor de
Segurança Nacional dos EUA, Robert O'Brein, em Brasília, em um evento que
deveria ser apenas, em tese, entre autoridades do setor econômico e financeiro.
Outro
ponto foi o discurso do ministro da Economia, Paulo Guedes, na cerimônia da
assinatura dos acordos. Após frisar que o Brasil comercializa tanto com EUA
como com a China, o ministro fez menção direta à preocupação com segurança:
"Então nós sabemos quem são nossos parceiros geopolíticos e, ao mesmo
tempo, praticamos comércio com todo mundo. A nossa aproximação com os
americanos foi sempre, está sendo, com base não só em resultado econômico, mas
também em segurança".
Em
outro evento em Brasília esta semana, o assessor econômico da Casa Branca,
Larry Kudlow, disse que Washington "encoraja o Brasil a observar a China
com atenção em relação a todo tipo de tecnologia, de telefonia e de 5G".
Executivos da Huawei se encontraram com Bolsonaro no ano passado — Foto:
Presidência da República
Os
americanos não fazem nenhuma sugestão explícita sobre apoio financeiro ao
Brasil caso Brasília opte por banir a Huawei da sua rede de 5G.
Mas em
fevereiro deste ano, o vice-presidente americano, Mike Pence, sugeriu que a
questão Huawei pode trazer prejuízos econômicos aos que tomarem posições
contrárias a Washington.
Naquela
ocasião, o Reino Unido havia anunciado que seguiria trabalhando com a Huawei na
adoção do 5G. Pence disse que a Casa Branca estava "profundamente desapontada"
com a decisão britânica, e lembrou que EUA e Reino Unido estavam em vias de
começar negociações para um tratado de livre comércio, agora que os britânicos
deixaram a União Europeia.
Perguntado
sobre se a questão da Huawei colocaria um fim nessas negociações, Pence
respondeu: "Veremos".
Em
julho, o Reino Unido acabou revertendo sua decisão, o que agradou os
americanos. Não só a Huawei será banida da rede de 5G, como o país prometeu
retirar todos os equipamentos da gigante chinesa de sua rede de
telecomunicações até 2027.
Existe
também uma grande incógnita sobre o futuro da guerra comercial entre EUA e a
China que só começará a se resolver após novembro. Até agora a briga contra a
Huawei tem sido uma bandeira do presidente Donald Trump. Mas analistas não têm
clareza sobre como Joe Biden se posicionaria em relação à Huawei caso ele vença
as eleições de novembro, já que o democrata não sinalizou qual é sua posição em
relação ao tema.
Outro ganho potencial para o Brasil, caso venha a concordar com a
posição americana, seria em relação à segurança nacional —
caso as preocupações levantadas pelas agências de inteligência sejam acertadas.
Os EUA
não são os únicos países a banir o equipamento Huawei. A preocupação com os
equipamentos chineses surgiu primeiro em 2018 em um relatório da "Five
Eyes" — uma aliança entre as agências de inteligência de Austrália, Canadá,
Reino Unido, Nova Zelândia e EUA.
Desde
então, diversos países seguiram as recomendações de não trabalhar com a Huawei.
É o caso de Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Japão, Estados Unidos,
Itália, França, República Tcheca, Polônia, Estônia, Romênia, Dinamarca, Letônia
e Grécia. A Alemanha e a Índia também estariam considerando seguir o mesmo
caminho. E a Suécia (país da Ericsson, rival direta da Huawei) anunciou esta
semana que também vai banir a empresa chinesa da sua rede de 5G.
Nesta
semana, um novo relatório feito por um comitê do Parlamento britânico sugeriu
que existe "claro indício de conluio" entre a Huawei e o
"aparato do Partido Comunista chinês". A Huawei criticou as
conclusões do relatório britânico.
Perder
Mas tomar uma atitude contra a Huawei — mesmo agradando Washington — também trará prejuízos para o Brasil.
O mais evidente deles é o prejuízo econômico. O Brasil já está atrasado
no leilão de sua rede 5G. O atraso foi provocado por um problema técnico —
algumas das frequências que serão colocadas em leilão são as mesmas de antenas
parabólicas, o que gerou um impasse entre empresas de televisão e telefonia.
Banir a
Huawei da rede — ou retirá-la completamente, como os britânicos pretendem fazer
— custaria tempo e dinheiro. Não há
estimativas para o caso brasileiro, mas no Reino Unido um estudo indica que o
banimento à Huawei poderá retardar a implementação do 5G em até três anos, com
custo superior a 18 bilhões de libras (mais de R$ 130 bilhões).
Nesta
semana, o presidente da Huawei no Brasil, Sun Baochang, disse ao jornal Folha
de S. Paulo que os operadores teriam que pagar mais para substituir seus
equipamentos, caso o Brasil opte por banir a empresa chinesa, e que esses
custos seriam repassados aos consumidores.
Esse atraso também retardaria a competitividade da economia brasileira, já que indústrias e empresas ficariam para trás em relação aos demais países que já teriam o 5G. O Brasil é o quinto maior mercado de telecomunicações do mundo, e dados oficiais mostram que há 231 milhões de celulares no pais — ou 94 celulares para cada 100 brasileiros.
Existe também o risco de o Brasil desagradar — e até mesmo receber retaliações
— da China com a decisão.
A
embaixada chinesa em Brasília emitiu um comunicado esta semana condenando as
declarações feitas por autoridades americanas em visita ao Brasil.
"Recentemente,
um pequeno número de políticos americanos, desprezando os fatos e forjando uma
série de mentiras, vem lançando ataques difamatórios contra o 5G da Huawei. Tem
utilizado o poder de estado para impedir as operações legítimas das empresas
chinesas de alta tecnologia, abusando no pretexto de segurança nacional", diz
a nota.
A
embaixada chinesa também destacou a importância das relações econômicas.
"A
China tem sido o maior parceiro comercial do Brasil por 11 anos seguidos. É a
maior fonte de superávit comercial e um dos principais investidores do Brasil.
(...) Temos a certeza de que as nossas relações não serão desviadas do trilho
de desenvolvimento saudável e estável por qualquer interferência externa."
A China
é hoje a principal fonte de superávit comercial do Brasil no mundo, com saldo
positivo de US$ 3,2 bilhões até julho. Já com os Estados Unidos, o Brasil
acumula um déficit comercial de US$ 3,1 bilhões até julho.



Essa briga política e comercial entre Estados Unidos e China tende a trazer diversas consequências para o mundo todo. Não sei se vale à pena ficar no meio dessa guerra e apoiar um ou outro. Seja qual a decisão tomada, espero que o Brasil não fique em uma situação difícil. O certo é que: independente de onde vier, a tecnologia 5G vai chegar até nós. Pena que o nosso país não faz investimento em pesquisas para desenvolver uma tecnologia como essa.
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