4º Bimestre: Ciências
Estudo da USP identifica bactérias da Antártica que poderiam
impedir desenvolvimento de cânceres
Compostos de bactérias
encontradas em planta exclusiva do continente controlaram tumores como os
cerebrais, de mama e de pulmão.
Por Samantha Silva, G1
Piracicaba e Região
21/10/2018 07h50 Atualizado há 3 horas
Uma
pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), campus
de Piracicaba (SP), identificou compostos anticancerígenos em bactérias
encontradas em gramíneas da Antártica. Segundo o estudo, os compostos se
mostraram capazes de impedir o desenvolvimento de tumores como o glioma
(cerebral), de mama, próstata e outros seis tipos de câncer.
A
descoberta é o primeiro passo para o desenvolvimento de novos medicamentos para
combater a doença.
Gramíneas crescem exclusivamente na Antártica e produzem
compostos anticâncer, Esalq Piracicaba — Foto: Leonardo José Silva/Arquivo
pessoal
O
estudo foi desenvolvido pelo pesquisador Leonardo José Silva no Programa de
Pós-graduação em microbiologia Agrícola da Esalq. A linha de pesquisa busca
espécies vegetais que resistam a ambientes extremos, como as plantas que sobrevivem
a altas ou baixas temperaturas.
“O laboratório que eu
trabalho é de bioprospecção, então a gente busca substâncias novas
principalmente em ambientes extremos. Trabalhamos com a caatinga aqui no
Brasil, um clima extremamente seco, e um dos ambientes que a gente estuda é
também a Antártica”, explica.
Entre
os princípios para buscar novas fontes de pesquisa, as plantas precisavam estar
em ambientes pouco explorados.
“A Antártica foi o último continente
a ser descoberto, é uma região isolada de tudo, onde tem pouquíssima influência
do homem, quase intocado, e que foi pouco estudado ainda. Então a gente decidiu
procurar algo novo na Antártica. ”
Ele
explica que, no continente, só existem duas espécies de plantas e uma delas, a
Deschampsia antarctica, ocorre exclusivamente no ambiente antártico.
“É uma grama incontínua, espaçada,
como se fossem flocos. É uma espécie que conseguiu se adaptar a condições que
são bem adversas, então ela consegue crescer mesmo a temperaturas muito baixas
e resistir mesmo quando tem a cobertura de neve, como se tivesse uma espécie de
proteção”, explica.
A
planta existe tanto em áreas costeiras como nas altas montanhas da Antártica. O
pesquisador esteve no continente em 2014 para coletar a espécie e pesquisar as
bactérias que existem neste tipo de vegetal. As amostras foram coletadas na
Ilha Rei George localizada na Península Antártica.
Resistência vegetal
Segundo
Silva, a escolha de uma planta como fonte de pesquisa se deve principalmente
pelo processo de evolução necessário ao vegetal que “não muda de lugar”, e com isso, precisa encontrar formas de se adaptar para
sobreviver ao ambiente.
“Durante o processo de
evolução, as plantas criaram uma ferramenta de selecionar micro-organismos do
solo para se beneficiar", afirma Silva.
"Um organismo que consegue se
locomover, quando está faltando alimento ou sofre uma ameaça naquele local, ele
vai pra outro. Uma planta é fixa, ela não consegue se movimentar, então ela
precisa sobreviver ali naquele local independente de tudo que esteja
acontecendo ao redor dela”, explica.
Usando
o exemplo da caatinga, Silva explica que nessa seleção de micro-organismos, as
plantas conseguem estimular um grupo de bactérias quando está muito seco,
liberando alguns compostos no solo, que recrutam essas bactérias para criar uma
espécie de “filme” protetor nas raízes para que ela não perca água pelo solo.
“As plantas liberam uma série de
açúcares, carbono, que usam pra alimento, e as bactérias produzem compostos que
favorecem as plantas nessa proteção contra falta de água, por exemplo, ou
radiação ultravioleta. E [as bactérias] também produzem compostos que protegem
as plantas contra patógenos [doenças]. Então foi apoiado nessa ideia que a
gente foi até a Antártica buscar essa planta e as bactérias que estão
associadas a elas”, explica Silva.
Novos
tratamentos
Ao
serem testadas em laboratório, a pesquisa pôde comprovar que essas bactérias
encontradas na gramínea Deschampsia antarctica produzem compostos capazes de
controlar o câncer in vitro, impedindo o desenvolvimento do tumor.
Os
testes foram feitos com nove tipos de tumores: o glioma (cerebral), mama, ovário,
rim, pulmão, próstata, cólon, leucemia e um tipo de câncer no ovário mais
resistente.
“Os nossos melhores
resultados foram obtidos para tumores de glioma, mama e pulmão”, completa
Silva.
A
partir disso, podem ser desenvolvidos medicamentos contra o câncer usando esses
compostos descobertos nas bactérias.
A
pesquisa teve orientação do pesquisador Itamar Soares de Melo, da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Meio Ambiente), e financiada pelo
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

É muito bom saber que, no Brasil, existem pessoas qualificadas e interessadas em ajudar a descobrir micro-organismos que podem combater algumas doenças graves, como tumores. Agora é só pesquisar mais e conseguiremos saber mais ainda como acabar com muitas doenças.
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