1º Bimestre 2021: Ciências
Covid-19:
cientistas descobrem americano com superanticorpos contra o coronavírus
16 março 2021
O escritor americano John Hollis, de 54 anos, achou
que iria contrair a covid-19 quando um amigo com quem ele dividia a casa se
contaminou e ficou gravemente doente, em abril de 2020.
"Foram
duas semanas muito assustadoras", conta John Hollis. "Por duas semanas
eu esperei a doença me atingir, mas nunca aconteceu."
Hollis
achou simplesmente que tinha tido sorte de não contrair a doença.
Mas em julho de 2020, totalmente por acaso, Hollis mencionou que morava com uma pessoa que ficou muito doente em uma conversa com o médico Lance Liotta, professor na Universidade George Mason, onde Hollis trabalha na área de comunicação.
John Hollis tem superanticorpos que o tornam imune ao Sars-Cov-2 e suas variantes
Com
isso Hollis descobriu que não só tinha contraído o covid-19, como seu corpo
tinha superanticorpos que o tornavam permanentemente imune à doença — ou seja,
os vírus entraram em seu corpo, mas não conseguiram infectar suas células e
deixá-lo doente.
"Essa
tem sido uma das experiências mais surreais da minha vida", conta Hollis.
"Nós
coletamos o sangue de Hollis em diferentes momentos e agora é uma mina de ouro
para estudarmos diferentes formas de atacar o vírus", afirma Liotta.
Na
maioria das pessoas, os anticorpos que se desenvolvem para combater o vírus atacam
as proteínas das espículas do coronavírus — formações na superfície do
Sars-Cov-2 em formato de espinhos que o ajudam a infectar as células humanas.
"Os
anticorpos do paciente grudam nas espículas e o vírus não consegue grudar nas
células e infectá-las", explica Liotta. O problema é que, em uma pessoa
que entra em contato com o vírus pela primeira vez, demora certo tempo até que
o corpo consiga produzir esses anticorpos específicos, o que permite que o
vírus se espalhe.
Mas os
anticorpos de Hollis são diferentes: eles atacam diversas partes do vírus e o
eliminam rapidamente. Eles são tão potentes que Hollis é imune inclusive às
novas variantes do coronavírus.
"Você poderia diluir os anticorpos dele em 1 para mil e eles ainda matariam 99% dos vírus", explica Liotta.
No estudo antiético sobre sífilis em pacientes negros Tuskegee, os doentes não receberam tratamento ao longo de 40 anos
Os
pesquisadores estudam esses superanticorpos de Hollis e de alguns outros poucos
pacientes como ele na esperança de aprender como melhorar as vacinas contra a
doença.
"Eu sei que não sou a única pessoa que tem anticorpos assim, sou apenas uma das poucas pessoas que foram encontradas", afirma Hollis.
Viés
racial em pesquisas
Descobertas
como essa, no entanto, muitas vezes não acontecem por causa de um viés racial
em pesquisas científicas: a maioria delas é feita com pacientes brancos. A
participação de negros em estudos tende a ser muito menor do que sua
porcentagem na sociedade.
"Há
um longo histórico de exploração (de pacientes negros) que faz com que a
comunidade afro-americana tenha desconfiança em relação à participação em
pesquisas", afirma Jeff Kahn, professor do Instituto de Bioética da
Universidade John Hopkins.
"É
compreensível que haja essa desconfiança", afirma.
Um dos experimentos mais conhecido feito com a participação de afro-americanos é o estudo de sífilis de Tuskegee: por mais de 40 anos, cientistas patrocinados pelo governo americano estudaram homens negros que tinham sífilis no Alabama sem prover medicamentos para a doença.
John Hollis doou seu sangue para que pesquisadores possam investigar os superanticorpos presentes no seu corpo
"Ao
longo dos anos, durante a produção do estudo, antibióticos se tornaram
amplamente disponíveis e não foram oferecidos a essas pessoas. Os pesquisadores
mentiram sobre o que estava sendo feito com eles e tiveram tratamento negado em
nome da pesquisa", explica Kahn.
"Quando
o estudo de Tuskegee veio a público, foram criadas regras e regulamento para
pesquisas em seres humanos, que estão em vigor desde os anos 1970".
Esse
histórico é um dos motivos pelos quais uma parte da população, que tem sido
fortemente atingida pela pandemia, muitas vezes é relutante para participar de
estudos ou tomar a vacina.
"Queremos
garantir que as comunidades que são mais afetadas estejam recebendo os
benefícios das tecnologias sendo desenvolvidas", afirma Kahn. "E,
para isso, essas populações precisam também ser parte de estudos."
"Nós
devemos honrar aquelas pessoas, as vítimas do estudo de Tuskegee, através do
envolvimento em um processo para garantir que aquilo não aconteça de novo. E
também para salvar vidas, especialmente na comunidade afro-americana, que tem
sido fortemente atingida pela pandemia", diz Hollis.
"Protegermos uns aos outros é um dever nós mesmos e às pessoas que amamos", afirma o escritor.
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56406899



Essa descoberta é muito surpreendente e espero que os estudos dos anticorpos de Hollis ajudem a combater o corona vírus. Mas o que mais me chamou atenção na notícia foi sobre a questão racial nas pesquisas científicas. Fiquei muito perplexo com o caso de Tuskegee pois não houve ajuda para os pacientes após a descoberta de tratamentos. Isso não pode se repetir mais, seja em pesquisas científicas ou em qualquer lugar.
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