1º Bimestre 2019: Saúde e Bem Estar
Música provoca 'conversa' entre áreas do cérebro; entenda como é
a relação entre ritmo, harmonia e sensações
Calma,
prazer e nostalgia são algumas das sensações experimentadas quando ouvimos
música. Diferentes ritmos causam reações diversas.
Por Tatiana Coelho, G1
05/04/2019 06h01 Atualizado há 2 dias
Quando
ouvimos música diversas áreas do nosso cérebro são estimuladas — Foto: Spencer
Imbrock/Unsplash
Ouvir
música pode ter diversos efeitos no corpo. Dependendo da música há quem jure
que se sinta mais feliz ou relaxado, outros não gostam de certos sons.
Mas
o que acontece no nosso cérebro quando estamos ouvindo música? Tecnicamente,
quando começamos a ouvir música, as ondas de rádio que são emitidas por um
instrumento, alto-falantes ou fones de ouvido fazem nossos tímpanos entrarem e
saírem.
Esse
movimento é traduzido em uma cadeia de sinais eletroquímicos que atingem o
córtex auditivo e, a partir daí o som é analisado em relação ao tom, ritmo,
volume, timbre, harmonia, localização espacial e ressonância.
De
forma geral, é como se todas as áreas do cérebro conversassem entre si.
O
córtex auditivo é responsável por distinguir volume e tom. Também é ele o
responsável por entender o ritmo. Quando o som entra pelos ouvidos, outras
áreas do cérebro também são ativadas: movimento, memória, atenção, emoção...
Diversos
estudos já mostraram que a música pode ter efeitos positivos no cérebro
liberando dopamina, neurotransmissor mais conhecido como "hormônio do
prazer". Apesar disso, a música afeta as pessoas de maneiras diferentes.
Música
que 'gruda'
Os
diferentes gêneros musicais podem provocar reações diversas entre as pessoas. A
música pop tende a grudar na cabeça e diversos estudos já se debruçaram sobre o
tema.
Algumas
“fórmulas” de batidas e melodias são mais fáceis de assimilar e por isso viram
hits. Em 2016, pesquisadores da Universidade de St. Andrews, na Inglaterra,
analisaram e listaram as 20 músicas mais ‘grudentas’ dos últimos tempos.
Bede
Willians, uma das autoras do estudo, disse ao jornal inglês “Mirror” que as
músicas mais grudentas costumam ter em comum um ritmo tão distinguível que
mesmo sem melodia é possível reconhece-las. É o caso de “We will rock you”, do
Queen.
“Nosso senso de ritmo é fundamental para ser humano. Todos nós
experimentamos o ritmo de nossa respiração e corações batendo e, desde muito
jovens, somos inventores rítmicos virtuosos à medida que transformamos o
balbucio em palavras e palavras em frases”, disse ela.
Melodias
e harmonias mais simples, assim como letras fáceis e padrões silábicos, também
ajudam a música pop a ficar na nossa mente.
Além
disso, segundo Bede, estudos mostram que doses certas de surpresa e expectativa
correspondida trazem satisfação quando ouvimos música.
"Gostamos
de ter uma sensação de antecipação para o que vem a seguir quando ouvimos, mas
não gostamos de ficar confusos quanto à trajetória geral da música”, explica.
"É
por isso que as músicas ‘grudentas’ de sucesso contêm tantas repetições
rítmicas, harmônicas e melódicas. A repetição permite que nossa mente crie uma
visão abrangente da música”.
É
muito barulhento!
Sabe
por que seus pais e avós tendem a reclamar do barulho do rock? Segundo um
estudo feito em 1998, na Universidade de Ohio, eles não estão de má vontade com
a sua juventude. É que com o passar dos anos ocorre perda auditiva e alguns
sons ficam distorcidos.
A
percepção do idoso de altas frequências diminui e as baixas frequências - como
o baixo e a bateria do rock - são ampliadas. Ou seja, para algumas pessoas, em
certa fase da vida, música rock parece muito mais alta e “desconfortável” do
que realmente é.
Sons do rock
podem parecer distorcidos com a idade e incomodar — Foto: Luuk Wouters/
Unsplash
E
apesar de todo o barulho e das letras violentas, o death metal não desperta desejos assassinos em
seus fãs. Pesquisadores do laboratório de música da Universidade Macquarie, em
Sidney, na Austrália, analisaram algumas das emoções causadas pelo estilo
musical.
De
acordo com os pesquisadores, a resposta emocional dominante a esse tipo de
música é prazer e empoderamento. Algo semelhante a sensação causada por
videogames, ainda que os com jogos considerados violentos.
Essa
música me lembra...
É
comum que uma música nos traga a lembrança de um momento, um lugar, uma pessoa,
até mesmo de sentimentos. Esta associação entre memória e uma música acontece
porque ao longo de toda vida nosso cérebro é exposto a diversas melodias,
notas, padrões musicais, letras e é “treinado” para fazer associações entre
eles.
“Cada
vez que nós ouvimos um padrão musical que é novo para os nossos ouvidos, nosso
cérebro tenta fazer uma associação através de qualquer sinal visual, auditivo
ou sensorial. Nós tentamos contextualizar os novos sons e, eventualmente,
criamos esses links de memória entre um conjunto particular de notas e um
determinado local, hora ou conjunto de eventos”, explica Daniel Levitin, no
livro “A música no seu cérebro” (Ed. Civilização Brasileira).
E
muitas vezes são estas associações variadas que definem o que é uma música boa
ou ruim para cada um de nós.
“É
o mesmo que qualquer outro bom / mau julgamento que fazemos - sobre comida,
sobre filmes, até mesmo artigos que lemos na internet! Nós gostamos de algumas
coisas e não gostamos de outras coisas. Isso se baseia, em parte, na
experiência e nas associações que temos com as experiências que tivemos no
passado. Alguma coisa boa aconteceu quando esta música estava tocando antes? Ou
algo ruim? Essa música me lembra algo bom ou ruim?”, explica Levitin ao G1.
Arrepio
A
memória também contribui para que a música seja capaz de nos emocionar e até
nos fazer chorar. Mas é uma reação - digamos - mais ancestral que muitas vezes
nos causa arrepio.
Reagimos
a certos sons porque nos causam alerta, como um grito ou um barulho alto, mas
uma vez que nosso córtex pré-fontal- responsável pela tomada de decisão- entra
em ação e reconhecemos o ambiente em que estamos, conseguimos sentir prazer ao
ouvir a música.
Além
disso, conseguir prever quando algo vai acontecer é importante para nosso
instinto de sobrevivência. Se nosso cérebro consegue "ler" para onde
a música está indo, ficamos mais satisfeitos e mais dopamina é liberada,
causando muitas vezes o arrepio.
Mas
não é todo mundo que se arrepia com facilidade. Um estudo feito por cientistas
da Universidade de Harvard em 2016 testou o efeito "arrepio" e
descobriu que algumas pessoas possuem mais fibras nervosas conectando o córtex
auditivo ao córtex insular anterior e ao pré-frontal, os responsáveis
justamente pelas emoções.
Música
altera o humor?
Sabendo
de todas estas conexões é possível afirmar que a música mexe com as emoções e o
humor. Não faltam por aí playlists que prometem acalmar ou ajudar a se
concentrar no trabalho.
Segundo
Levitin não é apenas um único fator que pode fazer uma música desencadear um
efeito de mudança no seu estado de espírito.
“Depende se gostamos da música e também do ritmo - músicas mais
lentas tendem a nos acalmar, músicas mais rápidas podem nos agitar, mas nem
sempre. Sons distorcidos tendem a ser mais agitados do que sons acústicos
limpos. Mas, sim, as playlists de humor funcionam, para algumas pessoas, em
algumas ocasiões”.


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