3º Bimestre 2020: Ciências
Primeiro caso de reinfecção pelo coronavírus é confirmado, anunciam cientistas em Hong Kong; OMS diz que 'é possível'
Pesquisadores testaram o código genético do
vírus e afirmaram ter encontrado sequências diferentes na primeira e segunda
infecção.
Por Lara Pinheiro, G1
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Cientistas em Hong Kong anunciaram, nesta segunda-feira (24), a confirmação do primeiro caso no mundo de reinfecção pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2). A pesquisa com o resultado foi aceita para publicação no "Clinical Infectious Diseases", da editora da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
"Um paciente aparentemente saudável e jovem teve um segundo caso de infecção pela Covid-19 diagnosticado 4 meses e meio depois do primeiro episódio", declararam os cientistas, da Universidade de Hong Kong, em um comunicado.
Os
pesquisadores testaram o código genético do vírus e descobriram que o vírus da
segunda infecção pertencia a uma linhagem diferente da primeira. Ao ser
contaminado pela primeira vez, o paciente, um homem de 33 anos, teve apenas
sintomas leves; na segunda vez, nenhum sintoma.
"Nossos resultados provam que a segunda infecção é causada por um novo vírus, que ele adquiriu recentemente, em vez de uma disseminação viral prolongada", afirmou Kelvin Kai-Wang To, microbiologista clínico da Universidade de Hong Kong.
Segundo
os cientistas de Hong Kong, a segunda "versão" do vírus é mais próxima
à que circulou na Europa entre julho e agosto (o paciente havia voltado de uma
viagem à Espanha). Já o primeiro vírus era semelhante aos que circularam em
março e abril.
A
pesquisadora Ester Sabino, da Faculdade de Medicina da USP, que fez parte da equipe que sequenciou o genoma do
coronavírus no Brasil, confirmou ao G1 que,
conforme a árvore filogenética dos vírus, eles são diferentes (uma árvore
filogenética detalha as relações entre várias espécies e as mutações que elas
sofreram).
"Claramente, a origem da primeira amostra é diferente da segunda.
Portanto, é uma reinfecção, e não um vírus que estava cronicamente na pessoa e
sofreu mutação no decorrer do tempo", afirma.
Circulação permanente do vírus é 'provável', dizem cientistas
Para
Sabino, a principal consequência da descoberta é que, com a reinfecção
possível, a
transmissão da doença se mantém, porque mesmo pessoas que
já tiveram a doença podem se infectar de novo.
"Isso tem consequência, porque você mantém o vírus circulando por muito tempo. Endemia é isso. É um problema", avalia Sabino.
Isso é
apontado pelos cientistas no estudo. "A confirmação da reinfecção tem
várias implicações importantes", dizem.
"Em primeiro lugar, é improvável que a imunidade de rebanho possa eliminar o Sars-CoV-2, embora seja possível que as infecções subsequentes possam ser mais leves do que a primeira infecção, como neste paciente", acrescentam.
A Covid-19 provavelmente vai continuar a circular na população humana, como é o caso de outros coronavírus humanos. A reinfecção é comum para outros coronavírus 'sazonais'", dizem os cientistas no estudo.
"Em
alguns casos, a reinfecção ocorre apesar de um nível estático de anticorpos
específicos", pontuam.
Em maio, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já havia sinalizado a possibilidade de que o coronavírus se tornasse endêmico (ou seja, passasse a ser encontrado regularmente em uma determinada área ou população), como o HIV, sem nunca desaparecer.
Implicações para a vacina
Injeção com vacina em teste para o coronavírus é aplicada na Alemanha — Foto: REUTERS/Kai Pfaffenbach/File Photo
Sabino explica que, para uma futura vacina, as mutações não são o problema, porque, além de serem poucas, no caso do coronavírus, as mudanças (mutações) que ele sofre não mudam a forma com que é reconhecido pelo sistema imune. A questão é se o corpo é capaz de manter esse reconhecimento a longo prazo.
Esse "reconhecimento" a longo
prazo importa porque, ao receber uma vacina, o corpo é induzido a produzir
anticorpos para uma determinada doença.
"Para a vacina, o problema é esse. A pessoa teve a infecção e perdeu o anticorpo. Será que vai acontecer a mesma coisa com a vacina? Vai durar quanto tempo a vacina? O problema é a proteção, não é a mutação", explica.
Para
esclarecer a diferença, Sabino compara o Sars-CoV-2 ao HIV – que é um vírus que
tem muitas mutações, e, por isso, é difícil encontrar uma vacina que funcione
contra ele. Diferente do coronavírus, o HIV "muda" tanto que o
sistema imune passa a não ser mais capaz de reconhecê-lo, e, por isso, tem
dificuldade em combatê-lo.
Na
pesquisa de Hong Kong, os cientistas dizem que uma vacina
para a Covid-19 não deve
ser capaz de fornecer proteção para a vida inteira. Além
disso, recomendam que mesmo pacientes que já tiveram a doença devem ser
imunizados.
"Novos
estudos sobre reinfecção, que serão vitais para a pesquisa e desenvolvimento de
vacinas mais eficazes, são necessários, afirmam.
Ester Sabino pondera que esse caso pode
ser raro.
"O fato em si é importante. Define a
possibilidade de reinfecção. O primeiro passo é definir que acontece. O segundo
é determinar quão frequente é isso", lembra.
"Pode
ser que esse indivíduo tenha perdido [os anticorpos] rapidinho. Mas, se a
maioria perder com um ano, talvez a cada ano você tenha que receber de novo,
junto com a influenza, uma dose dessa vacina", diz.
Anticorpos
No caso
do paciente de Hong Kong, apesar de ele ter tido a primeira infecção pelo
coronavírus, não foram
detectados anticorpos assim que ele foi infectado pela segunda vez – os
anticorpos só apareceram depois de cinco dias. Isso
pode indicar, segundo os cientistas, duas possibilidades:
1. Que ele não
desenvolveu os anticorpos depois da primeira infecção;
2. Que ele
desenvolveu os anticorpos depois da primeira infecção, mas eles foram
"sumindo", e, quando ele foi infectado pela segunda vez, não era mais
possível detectá-los.
Para os
cientistas, essa falta de respostas nos anticorpos pode ter consequências tanto
para tornar possível que as pessoas tenham o coronavírus mais de uma vez quanto na
gravidade da doença.
"Apesar
de nosso paciente ser assintomático na segunda infecção, é possível que a
reinfecção em outros pacientes resulte em uma infecção mais severa",
alertam.
Mas eles destacam que é possível que o
paciente tenha desenvolvido os anticorpos depois da primeira vez que ficou
doente – isso pode apenas não ter sido detectado pelos testes.
Ao
mesmo tempo, eles lembram, também, que a
resposta imune das células T pode ter um papel em melhorar a
severidade da doença na segunda infecção. Outros estudos, com o Sars-CoV-2 e
outros coronavírus, mostram que eles
podem induzir a imunidade das células T a longo prazo. (Os cientistas de
Hong Kong não falaram sobre essa resposta no paciente reinfectado).
OMS
diz que reinfecção 'é possível'
A líder técnica da Organização Mundial de Saúde (OMS), Maria van Kerkhove, disse que "é possível" que este seja o primeiro caso confirmado de reinfecção no mundo.
"O que entendemos é que pode ser um caso de reinfecção. É possível", afirmou a líder técnica.

Maria van Kerkhove, líder técnica do programa de emergências da OMS — Foto: Christopher Black/OMS.
Van Kerkhove lembrou ainda, que, segundo o que se sabe até agora, todos que são infectados pelo Sars-CoV-2 desenvolvem algum nível de imunidade contra ele – a questão é saber o quão protetora ela é e por quanto tempo dura.
No Brasil, a USP apontou, no início do mês, um possível caso de reinfecção pela doença em uma técnica de enfermagem, em Ribeirão Preto. Ela apresentou, pela segunda vez, os sintomas da doença, e teve um segundo resultado positivo no teste diagnóstico.

Esse caso de reinfecção aconteceu em Hong Kong, mas hoje (25), foi identificado mais outros dois casos, que ocorreram na Bélgica e na Holanda. Estou mais preocupado ainda com essa pandemia, pois antigamente eu achava que mesmo que eu tivesse COVID 19, me tratasse e me curasse, eu não pegaria mais, pois já teria anticorpos para isso. Mas, agora o mundo precisa continuar se cuidando e começar a pensar em como se adaptar permanentemente com esse o coronavírus.
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